homens da caverna fazendo fogo

Conhecimento e Colaboração11 min de leitura

Ronaldo Baltar
Cláudia Siqueira Baltar

Enquanto o conhecimento é ordenado e cumulativo, informação é aleatória e diversificadaDaniel Boorstin

Como se produz conhecimento?

A epistemologia vem buscando por muito tempo definir o conceito de conhecimento. Mas não há um consenso entre os epistemólogos e o debate permanece em aberto. Diversos autores e diferentes correntes de pensamento atribuem distintos significados para o ato de se conhecer algo. São entendimentos diferentes que envolvem os conceitos de saber, crer, conhecer, entender, compreender, entre outros. São ideias que ora se entrelaçam, ora se opõem. Depende da abordagem que os pensadores de diferentes correntes têm sobre o uso desses termos.

Para além das divergências, um ponto é certo: o conhecimento é cumulativo. Se o ato de conhecer é uma experiência individual, o conhecimento é um produto coletivo.

O que cada indivíduo conhece é resultado de suas experiências particulares, acrescido do acúmulo de experiência de outros indivíduos. O conhecimento é construído ao longo do tempo pelo compartilhamento acumulado de experiências, entendimentos e crenças.

Processo cumulativo do conhecimento

artefato de pedra lascada
fragmento de artefato de pedra lascada

Para exemplificar o efeito cumulativo do conhecimento, podemos recordar momentos na transformação da história humana. Há 2,5 milhões de anos, hominídeos começaram a fazer a ferramentas de pedra. Passados um milhão de anos, os instrumentos foram aperfeiçoados, com maior precisão e simetria.

hominídios fazendo fogo
uso primitivo do fogo

Mais um milhão de anos se passaram até as primeiras evidências de que hominídeos começaram a controlar o fogo. Usavam para alimentação e proteção. Há 160 mil anos, hominídeos começaram a usar o calor para moldar ferramentas de pedras. Avançando mais 60 mil anos, iniciaram-se as confecções de joalheria primitiva.

escultura humana pré-histórica
Escultura de argila

Adiante mais 50 mil anos, uma significativa mudança biológica e cultural, emerge o homo sapiens sapiens. O ser humano agora era capaz de confeccionar de roupas, praticar rituais de enterro dos mortos. Possuía os meios para fazer e atividades mais complexa para de caça e defesa. Há 35 mil anos, ocorrem os registros de pinturas em cavernas e esculturas em formato humano.

roda primitiva
Roda primitiva

Há 10 mil anos, iniciou-se o processo que transformou definitivamente a humanidade, com a agricultura e os assentamentos fixos.
Passados 5 mil anos, humanos desenvolveram a escrita e começaram a construir cidades. Há 3,5 mil anos têm-se os primeiros indícios de uso da roda.

Nos últimos 2 mil anos, o conhecimento humano acumulado produziu mudanças do que o que se observa nos 45 mil anos anteriores.

quadro processo cumulativo do conhecimento humano - infosoc

Anos que se passaram a cada nova etapa do conhecimento

Quem produz conhecimento?

Homero
Homero

Será que o Ser humano, nestes últimos 40 mil anos, ficou mais inteligente? 
Não, necessariamente.

A Odisseia e a Ilíada de Homero, escritas no século VIII AC, demonstram que o gênio humano se manifesta desde longa data.
A grande transformação para a sociedade tecnológica de hoje foi resultado do conhecimento que se acumulou como processo coletivo complexo.
Não resultou de lampejos individuais da inteligência. Livros sobre a história do conhecimento científico nos séculos XIX e XX difundiram a ideia de que grandes invenções surgiram do gênio de indivíduos especiais.

Pessoas acreditam que em momentos de rara lucidez, gênios dotados de capacidade intelectual superior aos demais, trouxeram à luz ideias inovadoras que mudaram o rumo da humanidade.  Só que isso é apenas uma idealização dos livros de história da ciência. Seria como contar a história de uma batalha, descrevendo apenas as ações de alguns heróis.

Conhecimento é um processo contínuo

O conhecimento é um processo contínuo. Resulta da interação de muitas pessoas e das muitas ideias que se transmite por períodos e lugares diferentes. O teorema de Pitágoras, é um exemplo.

Prova do teorema de Pitágoras
Prova do teorema de Pitágoras

O teorema foi formulado há cerca de dois mil e quinhentos anos. Demonstra que o quadrado do lado mais longo de um triângulo retângulo (a hipotenusa) equivale à soma dos quadrados dos outros dois lados (chamados de catetos).

a^{2} = b^{2} + c^{2}

O teorema de Pitágoras é importante por vários motivos, da contribuição para ciência até sua aplicabilidade prática. Aristarco mediu a distância entre a Terra e o Sol no ano 300 DC usando o teorema de Pitágoras. No Brasil, crianças aprendem o teorema no ensino fundamental.

As inovações resultam da síntese de várias ideias

Pelo que a história consegue demonstrar, Pitágoras era de fato um pensador genial. Mas o teorema não se irradiou de sua mente como uma luz que se acende na escuridão.  Sumérios e babilônios, antes de Pitágoras, já tinham noção da relação entre os lados do triângulo retângulo. Do mesmo modo, na Índia, 800 anos antes de Cristo, já eram conhecidas essas propriedades. Os chineses demonstraram o teorema no mesmo período que Pitágoras.

O ponto principal é que se trata de uma síntese de várias outras ideias. Pitágoras viajou pelo Egito, grande centro cultural da época, estudou com sábios, religiosos e místicos. É provável que em sua juventude tenha sido aluno de Tales de Mileto e de Anaximandro. Foi preso pelos persas e levado para a Babilônia.

Solto, foi para a Itália e fundou, na cidade de Crotona, uma sociedade secreta e mística para estudar os números. Acreditava, os números regiam o universo. Em Crotona, Pitágoras e seus discípulos desenvolveram a prova de que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos.

O teorema que leva o nome de Pitágoras não é ideia de uma só pessoa. É uma síntese que resulta de uma combinação de vários elementos, passados de geração em geração.

Conhecimento relaciona-se a problemas do cotidiano

Certamente os indivíduos devem ser reconhecidos pelo esforço e o resultado de suas contribuições. O exemplo de pensadores dedicados deve ser fonte de inspiração para todos. Mas o que resulta em conhecimento é o produto coletivo do pensamento. Que se combina com a solução de problemas reais do cotidiano, como o comércio, agricultura, construção civil, saúde, pobreza, educação.

Vários outros exemplos podem ser listados em todos os campos do conhecimento, da astronomia às ciências humanas. Da literatura à biologia. 

Se vi mais longe, foi porque estava sobre ombros de gigantes.

Os gigantes, na verdade, não são apenas os autores reverenciados pela literatura acadêmica. O verdadeiro gigante, que nos permite ver mais adiante, é o conhecimento humano acumulado. Em grande parte das vezes, são contribuições que se somam a partir inúmeras ideias anônimas. São questões relacionadas à busca de soluções para problemas da vida cotidiana. O problema de se imaginar que apenas autores dotados de inteligência “especial” produzem conhecimento está em subestimar a capacidade criativa de cada um.


Então, quem produz conhecimento?

Produz conhecimento quem se propõem a refletir de forma metódica sobre um determinado problema e cujos resultados sistematizados estão ao alcance de outras pessoas. Gênios são pessoas que se destacam em um dado contexto pela capacidade de síntese e criatividade em apontar soluções que outros não enxergam para problemas propostos. O fato é que a genialidade só é possível porque existe conhecimento acumulado suficiente para permitir as inovações propostas.

Compartilhando conhecimento

Se o conhecimento resulta do acúmulo de reflexões sistematizadas e continuamente revisadas, então o compartilhamento de resultados deveria ser a base do trabalho intelectual. Infelizmente, não é sempre assim que as coisas acontecem.

Somente para os iniciados?

Por exemplo, se dependesse da vontade de Pitágoras, apenas os iniciados em sua sociedade secreta teriam acesso à demonstração do teorema do triângulo retângulo.

autor: Sam LeVan

Para conhecer e compartilhar os achados pitagóricos, as pessoas deveriam também seguir a crença de que o mundo era uma relação entre números naturais. Deveriam acreditar na transmutação da alma e não comer carne. Ou seja, somente os que eram aceitos e seguiam o rígido código moral da sociedade dos pitagóricos teriam acesso ao conhecimento.
Provavelmente, Pitágoras ficaria escandalizado em saber que, dois mil e quinhentos anos depois, o teorema e outras formulações matemáticas, que mantinha em segredo, seriam ensinados para crianças de todo mundo.

Encontramos muitos outros exemplos na história que demonstram o conflito entre segredo e disseminação de ideias. Um exemplo famoso está na disputa entre Thyco Brahe e Johanes Kepler. Ambos foram personagens centrais da revolução científica europeia do século XVI. Thyco Brahe fez acurados registros astronômicos, mas não permitia acesso fácil a suas medições arquivadas no Observatório de Uranienborg, na Dinamarca, do qual era Diretor. Após sua morte em 1601, Kepler, então seu assistente, teve acesso aos registros detalhados. A partir dessas informações, pode corrigir e demonstrar definitivamente o modelo de sistema heliocêntrico com órbitas elípticas.

Seja por vaidade pessoal, receio de plágio, por riqueza, por medo de perseguição religiosa, por interesse de Estado, o fato é que muitas ideias inovadoras ficaram retidas em segredo por muito tempo. Com isso, a disseminação que podeira ter permitido um acúmulo mais rápido do conhecimento ficou restrita a pequenos grupos de pessoas.

No longo prazo, a disseminação do conhecimento supera a tendência ao confinamento de ideias

Se o tempo se encarregou de disseminar as ideias mantidas em segredo, isso não ocorreu por acaso. Se temos acesso hoje ao conhecimento construído ao longo dos séculos passados é porque houve quem investisse tempo e recursos para preservar, organizar e disseminar ideias, textos e documento.

Muitos esforços de disseminação do conhecimento foram promovidos. A cultura helênica clássica foi difundida por um conjunto de bibliotecas, sendo a de Alexandria a maior. Na idade média europeia, os monges copistas garantiram que o conjunto de textos clássicos chegassem até a prensa de Gutemberg, que imprimiu mais livros do que havia sido produzido até então. A era de ouro islâmica criou as primeiras Universidades e Observatórios astronômicos do mundo. Em períodos históricos distintos, esses esforços ocorreram na índia, norte da África, na China e em várias outras regiões.

Como resultado, ainda que ideias, por determinado momento, tenham sido colocadas em segredo ou destruídas, quando vemos a história humana ao longo dos séculos, percebemos ondas de preservação e disseminação do conhecimento.

A disseminação só se tornou possível porque, mesmo aqueles que quiseram deixar suas ideias em segredo, deixaram suas ideias organizadas e sistematizadas.

Assim, a sistematização das informações é principal fator de disseminação do conhecimento. A sistematização das informações resulta em método, ou seja, a descrição do caminho a ser perseguido até que se possa reproduzir os resultados alcançados.

De maneira geral, guardada as especificidades das áreas de conhecimento, esse é um procedimento básico para todos os campos do saber: filosofia, artes, ciências humanas, ciências exatas, ciências da terra, biológicas, saúde, engenharias.

Independente de diferenças entre correntes de pensamento e divergências entre pontos de vistas, o conhecimento requer sistematização das fontes e método. Sejam positivistas, marxistas, empiristas, pragmáticos, funcionalistas, estruturalistas, dedutivistas, indutivistas, pós-modernos; se pretendem transformar suas ideias em conhecimento, então devem se preocupar com a forma que os outros irão se apropriar e reproduzir seus trabalhos.

Plataforma colaborativa para gestão de projetos de pesquisa

É sobre isso que vamos tratar no curso Elaboração de Projetos com a Ferramenta Open Science Framework (OSF). Mais do que disseminar o uso de uma recursos de informática, a intenção é incentivar a sistematização e a aplicação de método de pesquisa científica, visando a colaboração e a reprodutibilidade dos resultados. A Plataforma OSF é um instrumento facilitador para essa tarefa.

Se a colaboração puder se estabelecer de imediato, ótimo. Se não, ainda que o trabalho seja individual ou desenvolvido por um grupo restrito de pesquisadores, ainda assim, a sistematização poderá permitir mais eficiência no desenrolar do estudo e da pesquisa.

Quando, um dia no futuro, a ideia concluída puder vir ser compartilhada, já estará estruturada para permitir a sua reprodutibilidade.


Curso Elaboração de Projeto de Pesquisa

Programação

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.