Photo by Tony Webster Mexico / US Pacific Ocean Border Fence United States and Mexico international border -

E se Trump construir o muro

Um dos pontos polêmicos (entre muitos!) da campanha presidencial de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, foi a proposta de construção de um muro na fronteira com o México. O principal objetivo seria conter a imigração ilegal. O muro deverá ser pago pelos próprios mexicanos. A ideia soa como fora de propósito para muitas pessoas que acompanharam as eleições, mas deu o tom para o que será a política do novo governo norte-americano.
A fronteira entre os Estados Unidos e o México tem umas 2.000 milhas, aproximadamente 3.200 km, a distância entre Porto Alegre/RS e Salvador/BA. Seria um empreendimento ao estilo dos imperadores da dinastia Ming, na China, que construíram a Muralha de 3.000 milhas (mais ou menos 4.200 km) para evitar a invasão dos mongóis.
Trump vai construir o muro? Ou se trata apenas de marketing eleitoral?
Sim, ele vai construir o muro. E não será uma “mera cerca”, como ele próprio frisou em entrevista coletiva recente.
O muro vai ser erguido, em primeiro lugar, porque a ideia não é tão fora de propósito para os americanos. De fato, um muro já vem sendo construído desde os anos 90. Já possui vários trechos com cercas e barragens de proteção.
Em 1993, o presidente democrata, Bill Clinton, defendeu a construção de uma barreira física na extensão da fronteira com o México. Em 1996 ele aprovou uma reforma na lei dos imigrantes, aumentando a multa para quem estivesse em situação irregular nos Estados Unidos. Aprovou o aumento de verbas para a polícia de fronteira e autorizou a construção de um muro de 17 milhas na Califórnia, perto de San Diego. Em 2006, o Presidente George W. Bush, assinou o Secure Fence Act, para a criação de uma cerca de 700 milhas (1.126 km) na fronteira com o México. Vários democratas, como a então senadora Hilary Clinton apoiaram a ideia (vídeo bastante divulgado pelos apoiadores de Trump). Mas a proposta teve outros opositores, entre os quais a igreja católica e movimentos de direitos humanos. A construção foi parcialmente interrompida, mas não totalmente, mesmo durante a administração Obama.
Em segundo lugar, permanece, entre os norte-americanos, a sensação de que há algo a ser feito na fronteira sul para barrar a entrada de imigrantes ilegais. O Presidente Barack Obama aumentou a fiscalização e foi o governo que mais deportou ilegais nos Estados Unidos. O efetivo na fronteira subiu de 4000 policiais em 1990 para 21.000 em 2016. O número de imigrantes para os Estados Unidos se estabilizou em meados da década passada e não vem aumentando. Ou seja, a fronteira não é aberta, o controle sobre os imigrantes é rigoroso e as deportações são rotina. Mesmo assim, para o eleitor norte-americano, a fronteira está aberta e isso traz sensação de insegurança ao país.
Muitos americanos são favoráveis a que os Estados Unidos exerçam com mais rigor o seu direito soberano de controle das fronteiras, mas são contra o uso político xenófobo que Trump faz dessa situação. De qualquer modo, ter a maioria da opinião pública favorável não é o ponto chave. A proposta do muro nasceu para ser polêmica e, somada a outras com efeito de mídia semelhantes, teve o apoio suficiente para torná-lo presidente.
O muro será construído justamente para ampliar o apoio ao governo Trump. O novo presidente está de olho nas eleições de 2018, quando será renovado o Congresso dos Estados Unidos.
Ele foi eleito sem a simpatia do Partido Republicano e, certamente, com reprovação do Partido Democrata. Fez seu percurso como um outsider. Agora ele precisa se empenhar para eleger o máximo possível de candidatos “trumpers” nas próximas eleições. Os atuais Republicanos não lhe darão o apoio necessário para muitas medidas que ele pensa em implementar, sobretudo aquelas de caráter protecionista. Ele precisa de mais pessoas que estejam sob sua esfera de influência no Congresso.
O muro será a principal propaganda para entusiasmar os eleitores a votarem em candidatos como ele para o Congresso. A construção vai reforçar a imagem de “realizador” (de “vencedor”, como gostam os americanos). Mostrará que o Presidente tem poder de decisão, não é um refém do Congresso, nem dos “burocratas” de Washington. Um muro erguido vai incentivar o discurso xenófobo e os políticos que se beneficiam disso de uma maneira mais enfática.
O muro poderá não ter mil milhas. No conjunto, será um arremedo das cercas que já existem, mas terá algumas novas paredes bem vistosas, a serem erguidas de forma bem visível em movimentadas cidades fronteiriças. Trump é um empresário do ramo imobiliário, especialista em erguer edifícios com fachadas grandiosas. O muro será concebido assim também.
Os mexicanos não vão pagar pelo muro, que será feito com dinheiro do contribuinte norte-americano. Mas Trump dirá, assim mesmo, que os mexicanos o estão pagando, seja pelo aumento de impostos na fronteira, taxação de remessas de recursos particulares dos Estados Unidos para o México, ou outras formas.
O que importa é criar o sentimento de que algo muito grande e importante está sendo realizado pela vontade e decisão do presidente Trump. Que seu estilo e suas ideias estão de fato fazendo a América grande novamente, e, com isso, conseguir formar um Congresso “trumpist” em 2018.
O muro será o cabo eleitoral.
 
 
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Publicado originalmente por Ronaldo Baltar, em Linkedin:
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