gráfico de pizza

Como usar corretamente o gráfico de Pizza

Cada modelo de gráfico foi pensado para servir a uma forma de exposição dos dados. Por isso, é importante saber qual informação pode ser destacada em cada modelo de apresentação visual. Cada gráfico é apropriado para facilitar a visualização de um aspecto da análise de dados. Gráficos circulares ou pizza (ou torta) são muito populares. Contudo, atualmente, muitos analistas de dados não recomendam o uso de gráficos circulares, preferindo as barras no lugar das fatias.

O problema com os gráficos de pizza é que as partes do círculo podem causar imprecisão visual, se os valores forem muito próximos entre cada categoria. Como esse tipo de gráfico é muito difundido (e as pessoas exageram nos efeitos visuais), a confusão visual acaba sendo maior, perdendo-se a clareza argumentativa.

Veja o exemplo a seguir. A partir da mesma tabela com oito categorias (nomeadas com letras de “A” a “H”), foram construídos dois gráficos, um em formato de pizza e outro de barras. Olhado para o gráfico de pizza (Gráfico 1), tente descobrir qual a categoria de maior valor e, qual a menor. A categoria “A” é maior do “B”? A categoria “G” é menor do “F”?

gráfico de pizza confuso
Qual é a maior fatia? O gráfico de pizza confunde quando há muitas categorias e os valores são próximos

gráfico adequado e elegante
Nesse caso, com o gráfico de barras a informação fica mais clara. Agora não há dúvida sobre qual é a categoria maior.

Agora veja as mesmas informações com o gráfico de barras (clicando na Aba “Gráfico 2” acima). A identificação dos valores maiores e menores é imediata. Esse é o objetivo de um gráfico, qualquer que seja ele, ressaltar aos olhos, de imediato, o destaque existente no conjunto de informações que estamos mostrando.

Gráficos de pizza são úteis para ressaltar a proporção entre categorias em relação ao todo. Também ajudam a destacar valores extremos. Gráficos de barra servem para se comparar a proporção entre categorias entre si. São mais úteis para se destacar diferenças sutis, não captadas pelo gráfico de pizza. Gráficos de linha são ótimos para comparação de valores contínuos, ressaltam as mudanças no tempo, ou variações em relação a outros dados. Cada gráfico tem a sua especificidade e a sua história. Saber usá-los de forma adequada é a base para aproveitar todo o potencial que cada tipo de visualização de dados pode proporcionar.

Uma viagem no tempo

Apesar de terem sido popularizados pelo uso de computadores pessoais nas últimas décadas do século XX, os gráficos começaram a ser utilizados como ferramenta de análise de dados bem antes. Pelo menos, desde o final do século XVIII, o uso sistemático da infografia estatística vem sendo desenvolvida em diversas áreas do conhecimento. O pioneiro dos gráficos de linha, barra e círculo (pizza) foi o escocês William Playfair.

Em 1786, publicou o livro [su_lightbox src=”https://archive.org/details/PLAYFAIRWilliam1801TheCommercialandPoliticalAtlas/page/n19″] [su_highlight background=”#fff299″]The Commercial and Political Atlas[/su_highlight] [/su_lightbox], no qual apresentou o que hoje denominamos de gráficos de linhas, barras, colunas e áreas. Playfair não foi o único. Entre o final do século XVIII até o início da Primeira Guerra Mundia, em 1918, muitos autores e autoras (como [su_lightbox src=”https://pt.wikipedia.org/wiki/Gr%C3%A1fico_de_setores#/media/File:Nightingale-mortality.jpg”] [su_highlight background=”#fff299″]Florence Nightingale[/su_highlight] [/su_lightbox]) contribuíram para o desenvolvimento da infografia estatística aplicada às diversas áreas do conhecimento.

gráfico de Playfair
Gráfico Circular de Playfair, comparando a área do Império Turco na Europa, Ásia e África em milhas quadradas, 1801.

No ano de 1801, Playfair publicou o livro [su_lightbox src=”https://books.google.com.br/books?id=Y4wBAAAAQAAJ&hl=pt-BR&pg=PA12-IA2&output=embed”][su_highlight background=”#fff299″]The statistical breviary[/su_highlight][/su_lightbox], descrevendo pela primeira vez o uso de um gráfico circular (hoje comumente chamado de gráfico de pizza).

No texto de 1801, Playfair explica como analisar essa sua criação, que chamou de figura estatística circular. O objetivo, segundo o autor, era auxiliar os estudos estatísticos mostrando imagens familiares aos olhos do leitor. Queria que as pessoas pudessem comparar as quantidades e proporções mais facilmente. Ao olhar para um círculo, o leitor pode ver rapidamente qual a proporção de cada parte em relação ao todo. O interesse de Playfair era comparar, principalmente, dados de população e renda.

Interpretação intuitiva do gráfico circular

Apesar das ressalvas de muitos analistas de dados, os gráficos de pizza tem uma força visual muito grande, quando usados corretamente. O gráfico de pizza foi criado para uma visão imediata das proporções. Veja o círculo abaixo. Imediatamente salta aos olhos uma reta imaginária de cima a baixo que divide o círculo em duas partes, onde cada qual corresponde a metade do círculo [katex]\frac{1}{2}[/katex]. Em seguida, intuitivamente, observa-se mais duas retas imaginárias em diagonal que demarcam as fatias de [katex]\frac{1}{4}[/katex]. Na sequência, nossos olhos vão dividir o círculo nas fatias de [katex]\frac{1}{8}[/katex] e assim sucessivamente.

Olhando para o gráfico acima, mesmo sem nos atermos aos números exatos, fácil observar que a categoria azul representa algo em torno de [katex]\frac{3}{4}[/katex] do total (ou seja, 75%), enquanto a fatia vermelha equivale a [katex]\frac{1}{4}[/katex] do total (25%). O gráfico de pizza ressalta que a categoria azul corresponde a aproximadamente três vezes a vermelha (isto é, equivale a três fatias de [katex]\frac{1}{4}[/katex]).

Essas informações são imediatamente captadas ao se olhar para o gráfico de pizza. Olhando só para a tabela com os dados, o observador demoraria mais tempo para perceber essas medidas de proporção entre as categorias.

Os gráficos não criam informações. Apenas explicitam mais rapidamente aquilo que já está disposto na tabela. Se o gráfico “inventar” alguma informação que não corresponde à tabela original, então se trata de distorção ou manipulação.

A força visual do gráfico de pizza

Vamos ver um exemplo da força visual de um gráfico de pizza com um exemplo concreto. Vamos analisar a proporção (ou desproporção) entre a população e a renda no Brasil em 2013, a partir dos dados da Receita Federal do Brasil. São dados públicos, com as informações agregadas dos contribuintes que entregaram a declaração de imposto de Renda no Brasil em 2014, tendo como ano base 2013.

O quadro acima expõe os dados da Receita em dois gráficos: “Declarantes” e “Rendimento Total Bruto”. A aba que contém o gráfico “Declarantes” mostra quantas pessoas entregaram as declarações de imposto de renda no Brasil em 2014, referente ao ano de 2013. O quadro na aba seguinte, “Rendimento Total Bruto”, mostra qual a renda declarada por cada faixa. Os dados estão agrupados (agregados) por faixa de renda em salários mínimos.

Vamos observar o primeiro quadro: “Declarantes”. Para facilitar a visualização e a comparação, as faixas de renda foram igualmente agrupadas por cores nos dois quadros. Traçando-se mentalmente as linhas divisórias na pizza, pode-se imediatamente ver que os declarantes com faixa de renda acima de 20 salários mínimos (alaranjado) representavam aproximadamente [katex]\frac{1}{8}[/katex] do total. Quase o mesmo tamanho da fatia daqueles que ganhavam até 2 salários mínimos (azul-escuro). Ou seja, aproximadamente a mesma quantidade de pessoas declarou ganhar acima de 20 salários mínimos e até 2 salários mínimos.

Clicando na aba “Rendimento Total Bruto” observa-se que os declarantes acima de 20 salários mínimos (alaranjado) possuíam quase metade de todo o rendimento bruto declarado em 2014 (com referência ao ano de 2013). Enquanto os declarantes com até 2 salários mínimos (azul-escuro) representa uma pequena fatia do total do rendimento declarado.

Então, quando usar um gráfico de pizza?

Os gráficos de pizza devem ser usados quando houver poucas categorias e contraste grande entre as faixas de dados. Também é importante ter em mente que esse tipo de gráfico só é útil se houver necessidade de uma comparação das variáveis com o todo. No caso acima, o grande número de categorias (faixa de salários mínimos) foi agrupado por cores para tornar possível a análise. Em geral, não se deve usar o gráfico de pizza quando a tabela tiver mais de quatro categorias. Se os valores não forem muito contrastantes, é difícil de se observar as diferenças entre proporções no gráfico de pizza. Nesses casos, é melhor utilizar o gráfico de barras.

Como se viu, se bem utilizado, o gráfico de pizza tem um impacto grande pela analogia imediata com a divisão de partes do todo, ou seja, a familiaridade aos olhos do leitor, como propôs Playfair. O gráfico imediatamente sugere a pergunta: quem fica com a maior fatia do bolo (ou da pizza)?

Sugestão de leitura

Tufte, Edward R. (2001). The Visual Display of Quantitative Information. Cheshire, CT: Graphics Press.

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