Os problemas dos “ismos”

O debate político, empresarial e acadêmico está cada vez mais reduzido a uma polarização entre “istas” e “anti-istas“. Sobram adjetivos e faltam ideias. Influenciadores e seguidores de tendência replicam palavrões como se fossem argumentos. Questiona-se atitudes e ideias morais que não tem relação com os problemas reais do país, das cidades, nem da maioria das pessoas.

Essa polarização vai cansando muitos, que se afastam dos debates públicos. Por outro lado, estimula os seguidores extremados dos diferentes “ismos“. Geralmente são pessoas que aderem a uma corrente de pensamento sem conhecer muito o que defendem. Bastam alguns princípios que os façam se diferenciar dos demais. Algumas frases que enalteçam a condição de vítima e apontem um culpado genérico. Como torcedor de time de futebol, uma vez seguidor, sempre seguidor. Qualquer reflexão é uma fraqueza. Qualquer dúvida, uma concessão ao “inimigo”.

Como disse Bertrand Russell:

“…A causa fundamental dos problemas no mundo de hoje é que os estúpidos são convencidos enquanto os inteligentes são cheios de dúvidas…”

Quanto mais imersas em “ismos“, mais propensas as pessoas estão a ver soluções simplistas para problemas imaginários. Os “ismos” (todos eles, tanto os de direita, quanto os de esquerda) tratam qualquer problema como ação conspiratória de inimigos idealizados. O socialista eliminará o burguês. O liberal eliminará o Estado. O conservador eliminará o moderno. O moderno eliminará o conservador. O moralista eliminará o imoral. O puro eliminará o impuro.

O mundo real, complexo e cheio de diferenças, é impenetrável para uma mente aprisionada em um “ismo“. Por isso, um “ista” sempre reduz o mundo em duas partes: os bons e os maus; explorados e exploradores; conscientes e alienados; fiéis e infiéis; verdadeiros patriotas e estrangeiros; escolhidos e os outros – em suma: nós e os outros.

Um “ista” é um “anti-“. Sempre reage e nunca propõe. Mesmo quando se pensa como vanguarda, um “ista” é um reacionário. Tem pavor da transformação de verdade. Pois se a realidade muda, qual o sentido de defender o seu “ismo“? Nega as mudanças que ocorrem na vida real. Mas espera por um mundo novo, pleno de virtudes, onde tudo seja para sempre. O mundo do eterno, sem história e sem vida porque a vida é metamorfose.

Os “ismos” se justificam por narrativas míticas, algumas vezes adornadas como argumento científico. A narrativa é quase sempre a mesma. Narra-se a existência de um mundo originário, no qual, no princípio dos tempos, as pessoas viviam pelos valores supremos, sem vícios. Então, algo acontece e há um decaimento moral e social. As pessoas passam a viver o infortúnio, a opressão, o sofrimento e a incerteza. Até que, em algum momento, se erguerá da massa alguém com coragem para liderar os justos, pelo resgate das virtudes do passado. Pode ser uma pessoa, uma entidade, um líder, um partido, alguém que restitua as condições sociais e os valores dos tempos originais.

Um “ista” seguirá e defenderá o seu líder, não importa o quanto a realidade de suas ações sejam contraditórias com os princípios morais defendidos pelo seu “ismo“.

Um “ista” professa suas ideias sempre criticando o presente e exortando o medo do futuro. Alarde que se nada for feito agora, o decaimento moral vai se agravar até o fim dos tempos, quando reinará a barbárie.

O problema para um “ista” está na própria existência do outro. Logo, a solução tem que ser extrema. O primeiro ato: negar ao outro o direito, o acesso à lei; o segundo ato, negar-lhe a identidade; em seguida, lhe é negada a liberdade de expressão; mais adiante, constrange-se o outro em seu íntimo: impedindo a liberdade de pensamento; e o ato final: elimina-se a existência do outro, seja pelo banimento, a prisão, o confinamento, o exílio, o extermínio, o paredão, um muro.

Nesse caso, a ação extremista de calar e eliminar os outros seria uma virtude. Por quaisquer meios, um ato de bravura. A ponderação seria um defeito, uma fraqueza. Como dito por Barry Godwater na Convenção Republicana de 1964:

Extremism in the defense of liberty is no vice” and “moderation in the pursuit of justice is no virtue.”

Por mais sofisticado que possa parecer o seu argumento, a solução de um problema, quando formulado por um “ista“, é simplista. Em última instância, reduz-se à eliminação do “inimigo”.

Quem é o inimigo de um “ista”? Todos aqueles que pensam diferente, se vestem diferente, parecem diferentes, falam diferente, dançam diferente, rezam diferente, não rezam, discordam ou não são como o “ista” gostaria que fossem.

No entanto, desde que o mundo é mundo, convive-se com as diferenças e as mudanças, queiram ou não. Em todos os momentos da história da humanidade, onde houve tolerância à diversidade, houve florescimento cultural, econômico e social.

Qual o antídoto para os riscos de intolerância dos “ismos“? O livre pensamento, a liberdade de expressão, a liberdade para se produzir conhecimento baseado em informações e o respeito à diversidade.

Todo problema, principalmente em questões sociais, requer ponderação a partir de vários olhares e múltiplas fontes de informação. Qualquer um que tenha uma resposta pronta para um problema, com certeza tem uma resposta errada.

Ponderar, ouvir, refletir, pensar a partir de evidências é a forma como se constrói soluções e explicações para os problemas propostos.

Cultivar o livre pensamento significa dar um passo importante para se afastar da caverna onde se encontram acorrentados entre si os seguidores dos velhos “ismos“.

Sem dados você é apenas uma pessoa qualquer com uma opinião ( W. E. Deming)

Os desafios do século XXI nos esperam com soluções inovadoras, e, no debate político brasileiro, já estamos atrasados duas décadas.

Se você é daqueles que só se informam pelas redes sociais, sugiro a leitura do artigo interessante de Ana Freitas no Jornal Nexo: “O que acontece quando você só vê opiniões parecidas com as suas“.

Esse não é um problema de agora. Vale a pena conferir com a leitura do historiador inglês do início do século XX, J. Bury:

A History of Freedom of Thought

História da Liberdade de Pensamento

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